Eleições de 2026 e o fim do mundo: por que devemos aprender com os povos indígenas?

Quando decidi criar esse blog, não escolhi o nome à toa, nem por sensacionalismo. Ao escolher a expressão “fim do mundo”, quis me referir, em especial, ao colapso ambiental alertado não só por cientistas, como os do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), mas também por vozes que falam sobre um outro tipo de saber, tão importante quanto o científico: um saber ancestral, dos povos indígenas, que é baseado em uma relação mais saudável com a Terra.

São povos que não adotam uma lógica de exploração que converte tudo o que é vivo em mercadoria, que, como ensina Vandana Shiva, é um verdadeiro estado de “guerra contra o planeta”. São vozes como a de Ailton Krenak (“Ideias para adiar o fim do mundo”), Davi Kopenawa (“A queda do céu”) e Moira Millán (“Terricídio: sabedoria ancestral para um mundo alternativo”).


Como dá pra notar, tenho uma certa dificuldade em manter o blog atualizado, mas, os tempos atuais, a poucos dias do segundo turno das eleições presidenciais brasileiras, me fazem crer que damos passos cada vez mais acelerados em direção a esse fim do mundo.

Terminamos o primeiro turno com Flávio Bolsonaro, um candidato, abertamente negacionista, com discurso violento, fundado em ressentimento, à frente e com boas perspectivas de vitória. A ele se soma um novo Congresso, de composição majoritária de extrema direita e com sede de “passar a boiada”, tratorando mecanismos de proteção ambiental, programas sociais e direitos de minorias e a soberania nacional. Esse talvez seja um dos exemplos mais didáticos do projeto e lógica colonial que vêm ganhando força também em outras partes do mundo.

Não me parece exagerado dizer que as democracias, que mesmo com seus defeitos ajudaram a assegurar conquistas importantes, estão entrando em um inverno bastante rigoroso.

Do outro lado, temos Lula, um candidato que promoveu avanços inegáveis no âmbito socioambiental: redução do desmatamento, da pobreza, da fome e do desemprego são algumas das marcas de seus mandatos. Evidentemente, o fato de ser a única opção comprometida com a democracia, meio ambiente e direitos humanos, não significa que não haja espaço para críticas, como a em relação à defesa da exploração do petróleo na foz do Amazonas ou a falta de diversidade de raça e gênero nas nomeações para o Supremo Tribunal Federal. É a única opção que traz alguma perspectiva de adiar o fim do mundo.


O problema é que, mesmo na hipótese de uma virada heroica, terá de lidar com um Congresso hostil, com uma agenda abertamente antiambiental, anti-indígena, antidireitos humanos e armamentista, não só no sentido literal, mas também no de reforço das armas usadas na guerra de destruição do planeta. O que torna tudo ainda mais assustador é que o enfrentamento do colapso ambiental, em especial, das mudanças climáticas (maior desafio imposto à humanidade em milênios) foi tema amplamente secundário, dando lugar a um discurso fundado em ressentimento e descolamento com a realidade.


Diante disso, como evitar ou ao menos adiar o fim do mundo? A meu ver, o primeiro passo é escutar o que dizem os povos indígenas. É reconhecer seus direitos e o papel que eles desempenham na luta contra o terricídio, fenômeno que, como ensina Moira Millán, abrange não só o genocídio, mas também o processo de destruição de ecossistemas, culturas e espiritualidades.

É necessário se somar à luta deles e se abrir para aprender com sua história e estratégias de resistência. Afinal, para eles o fim do mundo já ocorre há mais de cinco séculos.

Reaprender práticas de solidariedade, de interdependência. Tecer redes de apoio, criar espaços seguros para nossos afetos e para os mais vulneráveis. O não soltar as mãos de ninguém. Repensar a forma como lidamos com os outros e com o planeta.

Qualquer que seja o resultado das eleições, teremos dado alguns passos (ou até corrido, caso não seja revertido o resultado do primeiro turno) em direção ao fim do mundo. Cabe a nós, mais do que nunca, trabalhar para que essa caminhada tresloucada seja interrompida e os rumos sejam corrigidos. E isso precisa ocorrer em todos os âmbitos: o Estado é uma instância importante, mas não pode nem deve ser vista como a única possível.

Referências

KOPENNAWA, Davi. A queda do céu: palavras de um xamã yanomami. São Paulo: Companhia das Letras, 2015 KRENAK, Ailton. Ideias para adiar o fim do mundo. São Paulo: Companhia das Letras, 2019 MILLÁN, Moira. Terricídio: sabedoria ancestral para um mundo alternativo. São Paulo: Editora Mandaçaia, 2025. SHIVA, Vandana. Making peace with the earth. Halifax, NS: Fernwood Publ, 2013.



Emanuel Fonseca Lima